Adeus a “Otavão”: o gerente de banco que ajudou a impulsionar o crescimento de Mucuri e virou símbolo de uma geração

José Otávio Melo Seixas, o “Otavão”, acompanhou a transformação econômica de Mucuri, do período da agropecuária à expansão industrial, e deixou um legado marcado pela confiança, liderança e proximidade com a população

A história de desenvolvimento de Mucuri, no extremo sul da Bahia, passa pelas mãos de personagens que, muito além de cargos ou títulos, ajudaram a moldar a identidade econômica e social do município. Entre eles está José Otávio Melo Seixas, carinhosamente conhecido como “Otavão”, figura respeitada que marcou uma geração como gerente do antigo Baneb (Banco do Estado da Bahia) e empresário local.

Falecido aos 78 anos, completados no último dia 23 de abril, Otavão deixa um legado ligado diretamente à transformação de Mucuri em uma cidade economicamente mais forte, em um período decisivo de mudanças sociais, comerciais e industriais.

O gerente de banco que resolvia problemas

Hoje, em tempos de aplicativos bancários, inteligência artificial e decisões automatizadas, é difícil imaginar a importância que um gerente de banco exercia no interior do Brasil nas décadas de 1980 e 1990.

Naquele período, quando Mucuri ainda dava seus primeiros passos rumo ao crescimento econômico, o Baneb era a única instituição bancária da cidade — numa época em que Itabatã ainda era apenas um pequeno povoado às margens da BR-101.

À frente da agência, Otavão se tornou uma referência.

Mais do que administrar contas, ele representava confiança. Era o homem que escutava comerciantes, produtores rurais e chefes de família; analisava histórias, entendia necessidades e, muitas vezes, tomava decisões que impulsionavam negócios, garantiam empréstimos e ajudavam famílias a atravessar momentos difíceis.

Não havia aplicativos, transferências instantâneas ou análises automatizadas de crédito. Havia relacionamento, conversa e credibilidade.

Na prática, era a palavra do gerente que movimentava sonhos e ajudava a sustentar o crescimento econômico local.

Um homem próximo da comunidade

Apesar da posição de destaque que ocupava, Otavão jamais foi visto como um burocrata distante.

Com um jeito simples, acessível e naturalmente agregador, transitava entre diferentes classes sociais com facilidade. Era presença conhecida nas ruas, no comércio e nas conversas sobre o futuro do município.

Quem conviveu com ele lembra do perfil “amigueiro”, da facilidade em dialogar e do interesse genuíno pelas transformações de Mucuri.

O período era de profundas mudanças. A chegada da antiga Bahia Sul Celulose — atualmente Suzano — começava a redesenhar a economia regional, antes sustentada principalmente pela agropecuária e pela pesca.

Otavão acompanhou de perto essa virada econômica e se tornou uma das vozes influentes nas discussões sobre o futuro do município.

Do banco ao empreendedorismo

Após consolidar sua trajetória no sistema bancário, Otavão ampliou sua presença no comércio local ao fundar o Supermercado Seixas, instalado na Rua Jovita Fontes, então principal eixo comercial de Mucuri.

A cidade ainda não possuía grandes redes varejistas, e o comércio local era formado por estabelecimentos tradicionais e negócios familiares.

O supermercado rapidamente se tornou um ponto de referência para moradores, fortalecendo ainda mais sua ligação com a população.

Política: um caminho cogitado, mas nunca seguido

Pela liderança natural e influência comunitária, o nome de Otavão foi diversas vezes cogitado para ingressar na política.

Segundo amigos próximos, havia vontade, mas também hesitação.

Embora nunca tenha disputado cargos eletivos, sua influência política permaneceu presente no município por meio do diálogo e da participação nas discussões locais.

A ligação da família com a vida pública, no entanto, seguiu outro caminho. Seu filho, Alexandre Deolinda Seixas, o “Xandão”, construiu trajetória política própria e se destacou ao ser eleito vereador com votação histórica nas eleições de 2020, tornando-se posteriormente presidente da Câmara Municipal por dois biênios.

O fim de uma era

Com o passar dos anos e o peso da idade, Otavão se aposentou, mas permaneceu em Mucuri, cidade que adotou como lar.

Também testemunhou o fim de uma era do sistema financeiro regional: o Baneb, fundado em 1952, foi privatizado em 1999 e incorporado ao Bradesco, encerrando um ciclo importante para milhares de baianos.

Na última quarta-feira, a notícia de sua morte mobilizou familiares, amigos e moradores que guardam lembranças de um tempo em que relações pessoais ainda moviam grande parte das decisões econômicas de uma cidade.

Mais do que gerente de banco ou empresário, Otavão ficou marcado como um elo entre gerações — alguém que ajudou a atravessar a transição de uma Mucuri de economia tímida para um município industrializado, comercialmente fortalecido e entre os mais relevantes economicamente do estado.

Sua história se mistura à própria história do crescimento de Mucuri.

Aos familiares, amigos e admiradores, ficam as lembranças de um homem que, para muitos, representava confiança, proximidade e compromisso com a comunidade.

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